Fragmento das Redondilhas de Sôbolos rios
O mais conhecido dos poemas de tema religioso de Camões são as chamadas Redondilhas de Sôbolos rios ou Redondilhas de Babel e Sião. “Sôbolos rios” equivale ao “sobre os rios” do Salmo 137. Babel (ou Babilónia) volta a ser a terra do caos, da confusão, o mundo em que vivemos; Sião é agora sem dúvida o Céu.
É um poema que é uma oração, mas longa e um pouco difícil;
por isso copiam-se apenas algumas estrofes.
O poeta dirige-se a Cristo, a Quem invoca como “Senhor e
grão Capitão / da alta torre de Sião”, e suplica-Lhe que o ajude a vencer as
grandes dificuldades que encontra no caminho que conduz a Sião. Agora não fala
de política, antes da sua ascensão pessoal para Deus.
Os filhos de Edom a que alude já eram mencionados no salmo
inspirador (Edom foi um reino próximo de Israel, a sul de Jerusalém, e seu
tradicional inimigo); aqui corresponde às más inclinações que lhe dificultam o
caminho da santificação. Por sugestão do salmo, a linguagem do poema,
usada alegoricamente, é de base bélica.
A Vós só me quero ir,
Senhor e grão Capitão
Da alta torre de Sião,
À qual não posso subir,
Se me Vós não dais a mão.
No grão dia singular
Que na lira o douto som,
Jerusalém, celebrar,
Lembrai-Vos de castigar
Os ruins filhos de Edom.
Aqueles que tintos vão
No pobre sangue inocente,
Soberbos co poder vão:
Arrasai-os igualmente,
Conheçam que humanos são.
E aquele poder tão duro
Dos afeitos com que venho,
Que incendem a alma e engenho;
Que já me entraram o muro
Do livre alvedrio que tenho;
Estes, que tão furiosos
Gritando vêm a escalar-me,
Maus espíritos danosos,
Que querem como forçosos
Do alicerce derrubar-me,
Derrubai-os, fiquem sós,
De forças fracos, imbeles;
Porque não podemos nós
Nem com eles ir a Vós,
Nem sem Vós tirar-nos deles.
Dentre os poetas do século XVI que abordaram o tema religioso,
Camões é considerado o mais inspirado.
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