Novo soneto de sugestão bíblica

No soneto que desta vez se copia, está outra vez o Salmo 137. Que assim é comprovam-no a menção de Babilónia, no seu princípio, e a de Sião, a terminar. O poema assenta mesmo na oposição entre estes dois termos: “cá na Babilónia” contrasta com uma Sião um pouco vaga, de difícil existência terrena. Babilónia é descrita como terra de continuado pesadelo. O salmo funciona para o soneto apenas como uma sugestão algo distante.

 

Cá nesta Babilónia, donde mana

Matéria a quanto mal o mundo cria;

Cá, onde o puro Amor não tem valia,

Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

 

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,

E pode mais que a honra a tirania;

Cá, onde a errada e cega Monarquia

Cuida que um nome vão a Deus engana;

 

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,

O Valor e o Saber pedindo vão

Às portas da Cobiça e da Vileza;

 

Cá, neste escuro caos de confusão,

Cumprindo o curso estou da natureza.

Vê se me esquecerei de ti, Sião!

 

A Babilónia do soneto poderá corresponder a Goa ou então ao Oriente português do tempo, onde o poeta viveria e se sentiria injustiçado: violavam-se as normas elementares da moral e os governantes eram corruptos. O poema alguma coisa tem a ver com o tema do desconcerto do mundo. A sua linguagem é muito dura e lembra queixas que se repetem noutros textos do autor.

Este soneto chegou a ser popular entre aqueles que noutros tempos queriam apontar erros insanáveis a um regime político que não controlavam. Está muito presente na Internet.

 

Imagem – Representação de um leão rugindo numa parede da sala do trono de Nabucodonosor II (reinou 604–562 a.C.), atualmente no Museu Britânico. É anterior ao salmo 137.



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