Um soneto de tema bíblico
Crê-se que Camões nasceu em 1524 e sabe-se morreu em 1580. Celebra-se
por isso este ano o quinto centenário do seu nascimento.
Dentro da sua vasta produção lírica, tem lugar significativo, pela quantidade e qualidade, a poesia de tema religioso.
O poeta, que deixou “a vida pelo mundo em pedaços repartida”,
foi muito sensível ao tema do exílio. E o Salmo 137, no qual o salmista, exilado
e cativo em Babilónia, chora a sua desgraça e recorda os tempos de liberdade na colina sagrada de Sião, em Jerusalém,
inspirou-lhe pelo menos quatro sonetos, além das célebres Redondilhas de
Sôbolos rios. Estre salmo 137 começa assim:
“Junto aos rios da Babilónia, sentámo-nos a chorar, recordando-nos
de Sião.
Nos salgueiros das suas margens, pendurámos as nossas
harpas.
Os que nos levaram para ali cativos pediam-nos um cântico; e
os nossos opressores uma canção de alegria , dizendo: ‘Cantai-nos um cântico de
Sião!’
Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor estando em terra
estranha?
Se me esquecer de ti, Jerusalém, fique ressequida a minha mão
direita!
Pegue-se-me a língua ao paladar se eu não me lembrar de ti,
se não fizer de Jerusalém a minha maior alegria!”
No soneto que se copia, Camões faz apenas uma espécie de
tradução livre ou paráfrase da parte transcrita do Salmo 137:
Em Babilónia sobre os rios, quando
De ti, Sião sagrada, nos lembramos,
Ali com grã saudade nos sentamos,
O bem perdido, míseros, chorando.
Os instrumentos músicos deixando,
Nos estranhos salgueiros penduramos,
Quando aos cantares, que já em ti cantámos,
Nos estavam inimigos incitando.
Às esquadras, dizemos, inimigas:
- Como hemos de cantar em terra alheia
As cantigas de Deus, sacras cantigas?
Se a lembrança eu perder que me recreia
Cá nessas penosíssimas fadigas,
Oblivioni detur dextra mea!
Como o salmo inspirador, o soneto de Camões é uma jura de
fidelidade ao Deus de Israel na distante, enorme, poderosa e paganíssima
Babilónia.
O poeta deixou em latim o último verso, que à letra se traduz
por “a minha mão direita seja dada ao esquecimento”.
Noutras poemas, Camões apropria-se do mesmo salmo de modo
muito mais livre.
Imagem – Retrato de Camões.

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