Fragmento do seu poema a Santa Úrsula
Na vida Santa Úrsula quase tudo está envolto em lenda. Mas isso não é tão importante como possa parecer: se houve tantos mártires anónimos, ela e outras e outros como ela pode representá-los.
Esta mártir alemã, de Colónia, mereceu grande veneração no mundo
anglo-saxónico, mas, noutros tempos, também não era desconhecida por cá. Camões
escreveu sobre ela um inigualável poema. Nas estrofes que se copiam, a santa tece o canto do seu amor para com o
Salvador momentos antes de avançar para o martírio.
Camões foi por excelência o poeta do amor. Embora aqui
tenhamos o amor divino, a sua voz está tão afinada como é costume, se não
melhor.
Repare-se que os dois últimos versos das estrofes são um
refrão (repetem-se em todas) e dão a ideia geral do conjunto. Há nos versos um
jogo de conceitos: “o que desejo” e “o que não vejo” são naturalmente o rosto
de Cristo glorioso.
Amor, que por amor Te dispuseste
A restaurar o mundo errado e triste;
Amor, que por amor do Céu desceste,
Amor, que por amor à Cruz subiste;
Amor, que por amor a vida deste;
Amor, que por amor a glória abriste:
Quando verei, Amor, o que desejo,
Para que veja, Amor, o que não vejo?
Amor, que mais e mais sempre Te aumentas
No coração que lá contigo trazes;
Amor, que de amor puro Te sustentas
No fogo em que Tu mesmo arder me fazes;
Amor, que sem amor não Te contentas,
De tudo com amor Te satisfazes:
Quando verei, Amor, o que desejo,
Para que veja, Amor, o que não vejo?
Amor, que com amor me cativaste
(Se livre pode ser quem não cativas) ;
Amor, que em tais prisões m'asseguraste
As esperanças dantes fugitivas;
Amor, que suspirando m'ensinaste
A derramar por Ti lágrimas vivas:
Quando verei, Amor, o que desejo,
Para que veja, Amor, o que não vejo?
É um texto muito poético, muito bonito, mas também muito conceituoso, ao modo por exemplo de “Amor é fogo que arde sem se ver” ou de certos poemas de S. Teresa de Ávila. São estrofes para ler e reler com muito vagar.

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